A escritora iraniana Azar Nafisi é autora de um dos maiores best-sellers dos últimos anos, o livro "Lendo Lolita em Teerão" . A obra relata sua experiência ao criar um grupo de leitura de clássicos da literatura formado por mulheres no Irão pós-Revolução Islâmica.Azar Nafisi foi expulsa da Universidade de Teerão – onde ensinava literatura – em 1981, por recusar usar o véu islâmico. Depois de demitida, devido à pressão das autoridades iranianas, organizou em casa um ateliê de leitura clandestino.•
Entre 1995 e 1997, reuniu sete das suas melhores alunas para, em conjunto, descobrirem algumas obras-primas da literatura ocidental, como Nabokov, Fitzgerald, Flaubert, Jane Austen, entre outros.
À chegada, as suas convidadas libertavam-se dos véus, dos vestidos pretos e das luvas e deixavam aparecer o ouro dos adornos, as roupas garridas e o verniz das unhas.
Estes encontros literários levaram-nas, pouco a pouco, a abordar livremente a falta de liberdade das mulheres na sociedade iraniana.
Numa narrativa intensa, Azar Nafisi transmite, em “Ler Lolita em Teerão”, a sua paixão pelos livros. Lembra-nos que estes são como uma protecção da realidade opressora e que é no seu interior que se revela a identidade das pessoas e se descobre a verdadeira vida.
Todos nós temos sonhos. Esta é a história do sonho de Azar Nafisi e do pesadelo que o tornou realidade.
“ Imagino uma terra calcinada, mas onde as árvores e as flores crescem viçosas, por entre nuvens de poeira. Imagino uma cidade poluída e sobrelotada, rodeada de montanhas que quase tocam o céu. Imagino um povo gentil e afectuoso, de olhar encurralado e movimentos contidos. Não consigo imaginar o que foram aqueles oito anos de guerra com o Iraque. Imagino o negrume monótono da indumentária das jovens iranianas e as suas expressões furtivas. Não consigo imaginar o que é ser-se mulher na República Islâmica do Irão. Tento imaginar os demónios ódios maldade ignorância que vivem no interior dos elementos das brigadas da moralidade. Não consigo imaginar o que se passa nas mentes dos homens de turbante e de tamancos. Imagino a expressão "Em nome de Deus" no início de todos os documentos oficiais e palestras. Imagino um lugar povoado de vultos com a cara encostada ao chão, que se defendem atrás do silêncio. Imagino que, ali, a alegria só exista no movimento incessante das ruas e nesses jardins dos meus sonhos, talvez a mais bela herança da tradição persa. Imagino que as rotinas diárias permitam criar uma estranha noção de estabilidade a um povo aprisionado. Imagino uma espécie de estado geral de resignação e que, apesar de tudo, a vida continua. Imagino uma professora e seus alunos, a ler secretamente “Lolita”, numa casa anónima de Teerão.”












































